2008/12/30




"A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como os seus animais
são tratados" (Mahatma Gandhi)

Pois, pois...



José Eduardo Simões, presidente da Académica de Coimbra, defendeu ser necessária a construção de um novo estádio para 12 a 13 mil espectadores, durante a Assembleia Geral para aprovação do Relatório e Contas de 2007/2008.

"Os custos de manutenção do actual estádio serão incomportáveis em 2014, daí a necessidade imperiosa de construir um novo, para 12/13 mil pessoas", explicou o dirigente da briosa, acrescentando que se tiver de assumir as despesas totais do estádio, "a Académica vai ao buraco". "É uma questão de sobrevivência", frisou.

Simões alegou, ainda, que o Estádio Cidade de Coimbra comporta vários erros de estrutura, como por exemplo, o caso de "infiltrações", que já causam despesas graves para o clube: “Gosto imenso do estádio, mas há que pensar noutra solução".

Um dos pontos tratados na Assembleia Geral foi a rescisão unilateral, por justa causa, do contrato com a TBZ, que suportava todos os custos e obtenção de receita da gestão do estádio, e que pode, desta forma, acelerar a concretização deste novo projecto.

A ideia de um novo recinto desportivo foi bem recebida, tendo sido incluída no Relatório e Contas, o qual foi discutido e aprovado pela maioria dos cerca de 70 associados presentes.
Data: Segunda-feira, 29 Dezembro de 2008 - 1

2008/12/27

TBZZZZZZZZZ



Governo nacionalizou empresa suspeita de falência fraudulenta
TBZ: de caso de sucesso a empresa em falência
26.12.2008 - 09h15
Por Raquel de Almeida Correia

Quando os problemas financeiros da TBZ começaram a evidenciar-se, no início deste ano, João Barroqueiro reuniu-se com fornecedores e clientes para negociar dívidas.

No fundo, o fundador da empresa sentia-se responsável pelo colapso do negócio que criou há 12 anos e que representou marcas como Real Madrid, Benfica, FC Porto e Sporting. Em pouco mais de uma década, transformou uma empresa de 500 mil euros num gigante de 20 milhões. Em pouco menos de um ano, foi alvo de um arresto de bens, de um processo de insolvência, de rescisões de contratos milionários e está a ser investigada pelo Ministério Público por insolvência dolosa.

Parte dos danos terá de ser assumida pelo Estado, uma vez que este detém 50 por cento da TBZ, através de um fundo de investimento do nacionalizado banco Efisa (via BPN). O caminho da empresa fundada por João Barroqueiro, em 1996, sempre foi atribulado.

Depois de quatro anos a trabalhar sob o nome Sidith e de um contrato de gestão da marca Benfica, que não chegou a avançar, o gestor de 34 anos foi abordado pelos espanhóis da Biplano. A empresa de licenciamento e “merchandising” detinha a TBZ em Portugal e procurava um parceiro local.

No ano 2000, Barroqueiro desfez-se da Sidith e comprou 75 por cento da sociedade. Nos cinco anos que se seguiram, praticamente tudo mudou na vida da TBZ. Quando se deu o negócio com a Biplano, a empresa facturava 500 mil euros por ano. Em 2005, as vendas rondavam os dez milhões. O que mudou? Contratos milionários com alguns dos maiores clubes nacionais: o Benfica assinou em 2001, o Sporting, a Académica e o Beira-Mar em 2004 e o FC Porto em 2005.

Negócios fatais

Na maioria dos casos, estas parcerias davam à empresa os direitos de utilização da marca e, à excepção do Beira-Mar e do Braga, a exploração das suas lojas oficiais. Em contrapartida, pagava-lhes uma comissão pelas receitas geradas. No caso da Académica, o negócio incluía ainda gestão do estádio Cidade de Coimbra e, no do Sporting, a concessão do bingo. Foram precisamente estas duas apostas que condenaram a TBZ.

Os contratos de licenciamento e “merchandising” com o Benfica, o Sporting e o FC Porto iam compensado os negócios com clubes menores “que eram deficitários”, admite Barroqueiro. O problema foi suportar os prejuízos do estádio e do bingo. De acordo com o gestor, a relação comercial com a Académica causou “perdas de um milhão de euros” e a sala de bingo, que esteve parada 15 meses à espera de licença da Câmara Municipal de Lisboa para abrir, trouxe “prejuízos de 1,2 milhões de euros num ano”.

“A TBZ aceitou alguns negócios erradamente. Tinha expectativas demasiado elevadas. E pagou o preço”, desabafa. A Biplano acabou por sair do capital da empresa, em 2005.

O grupo espanhol afirma que se retirou por causa do dinheiro que a TBZ lhe devia. Barroqueiro contesta, afirmando que pagou 300 mil euros pela participação e que “ficou estipulado no acordo que a Biplano não tinha mais nenhum montante a receber”. Já há três anos, a empresa apresentava um cenário financeiro debilitado.

Apesar de as vendas ultrapassarem os 15 milhões de euros, o endividamento também cresceu, atingindo os 13 milhões, enquanto o capital próprio rondava os 820 mil euros. Ainda assim, a TBZ não desistiu de se envolver em novos negócios.

Em 2006 (ano em que mostrava já problemas de falta de liquidez e prejuízos de 13 mil euros), estabeleceu um contrato de licenciamento com a entidade pública espanhola Expoagua, responsável pela organização da Expo 2008, em Saragoça, que deveria ter gerado vendas de seis milhões de euros e que envolveu cerca de 60 fornecedores dos dois países. E, em Outubro de 2007, ganhou o licenciamento do Real Madrid, que pressupunha a angariação de dois milhões de euros. No caso da Expo Saragoça, que ocorreu entre Junho e Setembro deste ano, em vez de seis milhões de facturação, as receitas ficaram-se por “3,8 milhões”, porque o número de visitas ficou abaixo do previsto.Quanto ao Real Madrid, acabou por rescindir unilateralmente o contrato em Junho de 2008, alegando incumprimento de obrigações no que dizia respeito aos valores alcançados.

O accionista Estado

Para suportar a expansão, a empresa recorreu ao banco Efisa, que, em Maio de 2007, se apropriou de 50 por cento do capital, por via de um empréstimo. A instituição, que faz parte do nacionalizado Banco Português de Negócios (BPN) desde o início da década, é agora detida pelo Estado, o que faz com que parte da TBZ seja propriedade pública. Contactada pelo PÚBLICO, a Caixa Geral de Depósitos (banco estatal responsável por gerir o BPN) não quis comentar.

O banco Efisa chegou, aliás, a suportar a investida da TBZ no Brasil, já este ano. Apesar da instabilidade financeira, a empresa ganhou um concurso para a construção do estádio Arena, em Porto Alegre, no Estado de Rio Grande do Sul.

Em parceria com a construtora brasileira OAS e com o gabinete de arquitectura português PLARQ, a TBZ iria “prestar serviços de consultoria”, explica Barroqueiro. No entanto, o negócio ficou por concluir. De acordo com o Grémio de Porto Alegre, “foi requisitada informação financeira sobre a empresa e, em vez de a entregar, a TBZ optou por se retirar”.

Já o gestor alega que desistiu “porque o negócio não era interessante”. À medida que ia carregando prejuízos com actividades menos rentáveis e investindo em novos negócios, a empresa foi aumentando o seu passivo. No final ano passado, este indicador ultrapassava os 20 milhões de euros - quase 20 vezes mais do que o montante de capital próprio (1,6 milhões de euros).

Quando 2008 chegou, Barroqueiro teve de assumir a derrapagem financeira e reuniu-se pessoalmente com os credores para negociar o pagamento da dívida. Porém, enquanto essas conversas decorriam, deparou-se com uma notícia que acabaria eventualmente por condenar a reputação da TBZ. No início de Dezembro, foi surpreendida por um arresto de bens, movido por um fornecedor, a empresa China do Século XXI.

A empresa reclama uma dívida de um milhão de euros e, como garantia de pagamento, foi apreendida toda a mercadoria que a TBZ guardava num armazém em Vialonga. Barroqueiro tem uma versão diferente da história. Explica que “é a China do Século XXI que deve dinheiro”. Serão “cerca de 1,3 milhões de euros”, argumenta.

O gestor esclarece ainda que o antigo director de operações da TBZ, Pedro Carvalho, está ligado à sociedade de que a fornecedora faz parte, acrescentando que se tratou de uma situação “oportunista”, que ocorreu “sem haver notificação prévia”.

A empresa “não teve hipótese de se defender perante o juiz” e só quando for notificada do arresto poderá “repor os factos”. Será tarde demais. É que, assim que os parceiros da TBZ tiveram conhecimento da acção movida pela China do Século XXI, romperam de imediato a ligação à empresa. O impacto é significativo. “Passamos de uma empresa de 20 milhões para uma empresa de seis milhões”, diz Barroqueiro.

Acção com consequências

Na sequência do arresto, a Puma, fornecedora dos equipamentos do Sporting, interpôs uma acção de insolvência contra a empresa. A sentença, que terá como base uma alegada dívida de 850 mil euros, deverá ser proferida no início do próximo ano. Mas não foi a única acção judicial movida contra a TBZ, perante o risco de falência.

A Nike e a Adidas, por exemplo, que forneciam, respectivamente, o FC Porto e o Benfica, por intermédio da empresa, reclamam uma dívida que deverá rondar os 600 mil euros. “A partir do momento em que se deu o arresto, aconteceram várias coisas: uma boa parte dos acordos que tínhamos caíram, os clientes começaram a suspender pagamentos e, consequentemente, deixamos de conseguir pagar aos fornecedores”.

Real Madrid, Académica, Benfica, Sporting e FC Porto rescindiram unilateralmente os contratos e as entidades com as quais a TBZ foi fazendo negócios ao longo dos últimos anos começaram a exigir pagamentos.

No caso do Real Madrid, a TBZ ganhou recentemente uma providência cautelar contra o clube. Quanto à Académica, o gestor garante que o procedimento será o mesmo. Já no que diz respeito aos três grandes, o PÚBLICO apurou que Benfica, Sporting e FC Porto são credores da TBZ, sendo-lhes devido o pagamento das comissões pela utilização da marca oficial e pelas vendas nas lojas, mas só o primeiro revelou o valor em causa: meio milhão de euros.

Acresce a este grupo um conjunto de empresas com as quais Barroqueiro trabalhou nos últimos anos. É o caso da Expoagua, gestora da Expo Saragoça, e de 23 fabricantes espanhóis que trabalharam para a feira internacional. No conjunto, a dívida, que já deu direito a acção judicial, deverá rondar os 1,6 milhões de euros.

De acordo com o gestor português, houve uma reunião na passada sexta-feira em que foi discutida uma proposta de pagamento “abaixo deste valor”.

A TBZ aguarda, agora, uma resposta. Em Portugal, a TBZ também acumula dívidas significativas. A Expoluso, que fabricou expositores para a Expo 2008, e a Coelho & Durães, que ficou com licenças na área dos têxteis, são dois dos casos, reclamando o pagamento total de 560 mil euros. E há ainda uma dívida de cerca de 800 mil euros à Segurança Social, cujo pagamento garante já ter negociado.

O gestor terá ainda de responder num processo de insolvência dolosa interposto pelo Ministério Público.

Confrontado com este panorama, e apesar de já ter aliviado a TBZ da carga associada ao negócio do bingo do Sporting, rescindido no passado dia 4 de Dezembro, e da gestão do estádio da Académica, Barroqueiro admite que tem “um caminho difícil” pela frente. Há quem diga que quis dar passos demasiado grandes. E ele concorda.

Suplemento de Economia