
Tendo tentado adquirir este livro (ainda) sem sucesso, encontrei este "post", que aqui transcrevo, no Blog de um professor de Comunicação Social da Universidade da Amazónia.
"Fogo amigo
Superioridade moral da esquerda na fogueira
Colunista da imprensa britânica Nick Cohen ataca com fúria seus ex-camaradas, resistentes adeptos da obsessão anti americana
Caio Blinder, de Nova York
O que é a esquerda neste começo de século 21? O que sobrou desta esquerda? No jogo de palavras What's Left? (Fourth Estate, 405 páginas,
Em termos mais específicos, a fúria de Nick Cohen é dirigida contra movimentos e intelectuais de esquerda (com foco na sua Grã-Bretanha e na pátria desalmada dos EUA) que desde os atentados do 11 de setembro e a guerra do Iraque justificam o extremismo islâmico, sempre em nome de uma obsessão antiamericana. Nick Cohen simplifica, nem sempre explica, escorrega na terminologia e muitas vezes ataca os alvos mais fáceis para se esquivar de oponentes mais complexos.
Obviamente, nem todo opositor da guerra do Iraque é conivente com a patologia do extremismo islâmico (hoje os opositores são 2/3 dos americanos); é possível debater a definição deste extremismo como fascismo; e Cohen é maroto quando devota muitas letrinhas a alguns grupelhos lunáticos como o Partido Socialista dos Trabalhadores (na Grã-Bretanha) para denunciar a venalidade da esquerda ou daqueles que no jargão americano são conhecidos como liberais.
Mas no final das contas, isto são detalhes. O fundamental são as pinceladas. Nick Cohen está aí para polemizar, provocar e tocar fogo. Missão cumprida com a diatribe. Ele é saboroso desde o começo do livro. Filho de pais judeus comunistas em Manchester, o garoto Nick precisava seguir uma linha citricamente correcta. Nada de laranjas da África do Sul (apartheid), da Espanha (franquismo), de Israel (opressão dos palestinos) ou da Flórida (estado no país presidido por Richard Nixon).
Nick Cohen, portanto, aprendeu, em casa, que a esquerda tem superioridade moral. Os demais são bagaços de laranja. Não existia, nos tempos do seu aprendizado, equivalência moral entre o antifascismo e o anticomunismo. O comunismo pode ter falhado e praticado atrocidades, mas ao menos era bem intencionado na sua causa universalista. Agora que experimentou variedades de laranja, Nick Cohen está azedo. Exasperado, ele denuncia a hipocrisia da Amnistia Internacional, Harold Pinter, Noam Chomsky e o tal do Partido Socialista dos Trabalhadores que justificam os “terroristas suicidas inspirados pela teologia psicopata de extremistas de direita”.
A investida contra a Amnistia Internacional me incomoda, mas eu gosto dos ataques contra Chomsky, herói dos fóruns sociais mundiais, que por uns tempos desculpou Pol Pot. Normal que Chomsky considere George W. Bush pior do que Saddam Hussein. Para Cohen, esta venalidade é mais profunda e tem implicações históricas mais significativas do que a sem-vergonhice de Eric Hobsbawn e Raymond Williams que desculparam o pacto Stálin-Hitler em 1939.
Cohen nem sempre é camarada com George Bush e Tony Blair, mas os dois dragões da maldade não são o alvo de sua indignação moral. E o livro tem até mais “timing” quando Bush e Blair estão por baixo e a manipulação das informações para justificar a invasão do Iraque mais do que escancarada. Afinal, é justamente agora que as vítimas de uma guerra desastrosa precisam de solidariedade internacional. Mas, como na época da invasão do Iraque, em amplos sectores da esquerda existe distanciamento. Nas marchas de Fevereiro de 2003 em várias cidades do mundo, havia mais denúncias contra o fascismo de Bush do que palavras de conforto a uma população submetida às atrocidades de Saddam Hussein. No livro, Nick Cohen toma nota do desconforto do nosso sul-americano Ariel Dorfman com esta situação.
E agora que o Iraque está assolado pela violência jihadista e dos grupos sectários (com culpa no cartório de Bush), a tese central de Cohen sobre o obsessão antiamericana é impecável. Muitos esquerdistas postados na sua superioridade moral estão muito mais preocupados em lembrar o acerto de suas profecias do que atuar em apoio dos iraquianos que sofrem com as ações de milícias terroristas. Mais um triunfo do narcisismo político.
No maquiavelismo barato de tratar o inimigo do seu inimigo como amigo, esta esquerda vilipendiada por Nick Cohen vai sobrar de novo quando Bush partir de vez para o rancho do Texas. Para usar um termo maldito, Cohen já fez sua autocrítica. A este vencedor, as laranjas."
Marcelo Vieira
Local: Belém, Pará, Brazil
Jornalista. Professor do Curso de Comunicação Social da Unama.