
Direitos do Homem: Saramago parafraseia Hitler para dizer que são "papel molhado"
15 de Novembro de 2008, 18:13
Lisboa, 15 Nov (Lusa) - O escritor José Saramago parafraseou hoje Hitler para definir o que são os direitos humanos actualmente, definindo-os como "papel molhado".
"Em todo o Mundo os direitos humanos não contam nada. São, como dizia o Hitler que tem frases interessantes, papel molhado", disse o escritor e prémio Nobel da Literatura à agência Lusa à margem de um encontro comemorativo do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem pelas Nações Unidas, realizado em Lisboa.
"Trinta direitos estão consignados ali e ao lê-los ou desatamos à gargalhada ou desatamos a chorar", disse José Saramago, sublinhando que está é uma realidade e que é de lamentar.
"Claro que há uma retórica comemorativa a que não se pode fugir, mas se ficamos por aí...", disse, sublinhando que "cada vez mais é necessário comemorar os direitos do homem" uma vez que a conjuntura mundial é de crise económica" e "há milhões de pessoas desempregadas".
Saramago defendeu ainda a necessidade de organizar um "movimento social amplo em defesa dos direitos humanos".
"O problema que nem sempre é pacífico é o que comemoramos hoje e o que é que fazemos nos restantes 365 dias do ano", disse, sublinhando que as comemorações da declaração Universal dos Direitos do Homem não podem ser celebradas como o 05 de Outubro em que se vai ao cemitério homenagear os que implantaram a República.
Para a escritora Alice Vieira, outra das participantes na sessão de hoje, o que "parece grave" é quando os direitos humanos não são cumpridos no nosso dia-a-dia e as "pessoas normalmente nem pensam que isso é um incumprimento dos direitos humanos".
Quando se fala em direitos humanos, "normalmente toda a gente pensa que não são cumpridos no Congo, em Darfur, na Palestina, no Iraque ou no Afeganistão e então aí estamos todos a favor dos direitos humanos quando está em causa o incumprimento e é lá longe", disse.
"O que me preocupa e assusta muito, porque isso é o meu terreno e onde eu ando a trabalhar, é que na parte dos jovens eles nem sequer pensem o que seja o incumprimento dos direitos humanos", referiu.
"Que nem sequer pensem que quando dão pontapés, quando roubam o colega do lado, quando atiram ovos a seja quem for, tudo isso é um incumprimento dos direitos do homem", sublinhou.
Razão por que defendeu que aquela iniciativa em curso devia estar a ser feita "nas escolas" com os jovens para lhes "explicar realmente do que é que se trata quando se fala de direitos humanos".
"Direitos humanos não é só matar pessoas, prender pessoas ou espancar pessoas lá nos confins do mundo", mas sim aquelas "coisas muito comezinhas e muito normais a que nos vamos habituando, que se passam aqui e que é grave", sustentou.
A iniciativa de hoje foi promovida por um grupo de cidadãos que em 2007 pôs a circular um abaixo-assinado intitulado "Pela Liberdade, pela Democracia, por Abril" assinado por individualidades como Modesto Navarro, Siza Vieira, José Saramago, entre outros.
Na cerimónia, que contou com perto de 50 participantes, marcaram presença o reitor demissionário da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, e o antigo reitor da mesma universidade José Barata Moura.
CP.
Lusa/fim